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terça-feira, 20 de outubro de 2015

O CULTO NA HISTÓRIA DA IGREJA (IV)

Culto Puritano
O CULTO NA ERA DOS PÓS-REFORMADORES ("PURITANOS")

            As gerações seguintes à Reforma trouxeram um forte movimento anti-ritualista engendrado pelos cognominados “Puritanos”.  Mas, quem eram os puritanos? Quais eram os seus questionamentos e o que eles reivindicaram? Esses indivíduos “eram homens de moral severa, muito firmes em suas convicções e grandes estudiosos da Bíblia. Na teologia, seguiam João Calvino”.(1) Suas principais reclamações era destinadas à permanência na liturgia do ritualismo e das vestes clericais que lhes soavam como herança da igreja romana. “Eles se opunham à guarda dos dias santos, à absolvição clerical, ao sinal da cruz, à presença do padrinho no batismo, ao ajoelhar-se na hora da ceia e ao uso da sobrepeliz pelos ministros. Deploravam eles, também, a inobservância do domingo pelos anglicanos”.(2) Se procurarmos uma só palavra para conceituar a ideia puritana de culto, a expressão mais apropriada seria: SIMPLICIDADE – “Aqui está a essência do culto puritano: simples, claro, iluminado, desconfiados de ritual e distração humana construído ao redor da pregação da Palavra”.(3)
           
              A reivindicação maior dos puritanos era uma estreita subordinação à Palavra de Deus em se tratando do culto e da forma de governo.


RETORNO AO PRINCÍPIO REGULADOR DO CULTO

            A Igreja da Inglaterra (Anglicanismo) seguiu a regra formulada por Lutero que consistia em permitir a continuação das tradições que não fossem contrárias à Bíblia Sagrada e que pareciam úteis. Isso está refletido no Livro de Oração Comum (1552) do rei Eduardo, instituído pelo Ato de Uniformidade.  Os puritanos foram contrários ao princípio exposto no Livro de Oração, e seguiram o pensamento de João Calvino, que afirmava não admitir coisa alguma que não estivesse diretamente prescrita nas Escrituras. Esse princípio regulador de culto público, para sermos justos, não foi uma invenção puritano do período Isabelino. Na realidade eles estavam, apenas, dando continuidade a ideia dos reformadores antecessores. Historicamente, percebemos tal princípio na teologia de William Tyndale (1494-1536), divergindo com Thomas Cranmer (1489-1556). Cranmer aceitava as Escrituras como a única autoridade em matéria de fé, contudo não aceitou que a Igreja fosse limitada em suas cerimônias, práticas e governo, apenas à Bíblia. Em contrapartida Tyndale exigiu que, não apenas o credo da Igreja, mas também sua organização e culto deveriam ter base Escriturística. Há referências, também, em torno da controvérsia sobre o princípio regulador do culto entre John Hooper e Nicholas Ridley, em 1550; e entre John Konx e Thomas Kraumer em 1522-1553. As duas coisas particularmente em debate eram o uso de vestimentas e rubricas ou títulos de capítulos no segundo Livro de Orações da Igreja Anglicana exigindo a postura de joelhos na eucaristia. Hooper e Knox questionaram tal prática, pois afirmavam que não havia nada que validasse biblicamente tal uso.
            
         Nessa mesma linha de pensamento, os puritanos questionaram a adoração da Igreja da Inglaterra. Eles entendiam que muitos “trapos do papado” continuavam na Igreja da Inglaterra e queriam purificá-la com base na Bíblia Sagrada. Eles exigiam uma liturgia pura.(4)
           

EXAGEROS? TALVEZ, EXCESSO DE ZELO

Os puritanos levaram muito à sério o princípio que regulava o culto. Para alguns estudiosos eles, talvez, tenham ido longe demais na aplicação desse princípio. O reformador João Calvino, apesar de achar que existia multas tolerabiles ineptios (“muitas toleráveis insensatez”) no Livro Comum de Oração da Igreja Anglicana, ele as tolerava (sabemos que Calvino não apenas permitia, mas também usava a famosa toga genebrina – ainda em uso em algumas Igrejas Presbiterianas no Brasil).  Os puritanos, por sua vez, diferentemente de Calvino, não toleravam as partes insensatas do Livro Comum de Oração, e insistiram que todas as cerimônias deveriam ter apoio bíblico direto, ou seriam intromissões ímpias. Sobre esse princípio puritano, diz James Packer: “A ideia de que uma base bíblica, sob a forma de preceito ou precedente, é exigida para sancionar cada item essencial incluída na adoração pública a deus foi, na realidade, uma inovação puritana que se cristalizou no curso dos prolongados debates que se seguiram ao acordo elisabetano”.(5)
           
         Com a intenção de apresentar evidências bíblicas para provar a relevância do princípio regulador no culto, os puritanos apresentaram argumentos curiosos, por exemplo:

  • Com base em Números 28. 9-10  (“No dia de sábado, oferecerás dois cordeiros de um ano, sem defeito, e duas décimas de um efa de flor de farinha, amassada com azeite, em oferta de manjares, e a sua libação; é holocausto de cada sábado, além do holocausto contínuo e a sua libação”) - comprovava-se que dois cultos eram obrigatórios aos domingos;
  • Com base em Romanos 8.26 (“Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis.) – a prova que formalidades litúrgicas são ilegítimas;
  • Com base em Atos 1.15 (“Naqueles dias, levantou-se Pedro no meio dos irmãos (ora, compunha-se a assembléia de umas cento e vinte pessoas) e disse...”) – comprova-se que o ministro deve permanecer em um só lugar durante o culto;


Em relação a essas “provas” bíblicas o dr. Douglas Kelly se expressa assim: “Apesar de ter uma tremenda admiração pelos puritanos, eu acho que nesse ponto eles foram um pouco simplistas, e acredito que eles não foram capazes de biblicamente defender esta posição”.(6)


JOHN OWER, ESSÊNCIA DO PENSAMENTO PURITANO

John Ower (1618-1683), o teólogo puritano mais eminente, escreveu um tratado que reflete muito bem a visão puritana sobre o que é e o que não é lícito no culto público, diz ele: “... a invenção arbitrária de qualquer coisa imposta como necessária e indispensável no culto pública a Deus, como parte desse culto, e o uso de qualquer coisa assim inventada e ordenada no culto é ilegal e contrária à regra da palavra de Deus... Portanto, todo o agir  da Igreja com relação ao culto a Deus, parece consistir na  precisa observação daquilo que é prescrito e ordenado por Ele.”(7)


OS PURITANOS E A CONFESSIONALIDADE ESCRITURADA

Estamos recapitulando uma fase muito rica e significativa para a fé reformada. Nesse período da história foi constituída a Assembleia de Westminster, elaborada pelos puritanos. Esta elaborou uma forma de governo, uma confissão de fé, catecismos, um saltério e um diretório para o culto público.

A intenção de formular um diretório de culto era para substituir o Livro de Oração Comum, e seria estabelecido na Inglaterra, Escócia e Irlanda. O Diretório não tinha o interesse de ser um manual de culto, antes era um guia que servia para auxiliar o pastor de uma igreja local. Logo no início constava uma ordem parlamentar – “Uma ordem do Parlamento para a retirada do Livro de Oração Comum e para o estabelecimento e efetivação do diretório para o culto público a Deus”.(8)

O Diretório sugere uma ordem de culto que não é muito diferente da de Calvino em Genebra, porém mais enxuta para ressaltar a simplicidade da adoração pública.


LITURGIA PURITANA

·         Oração
·         Leitura Pública das Sagradas Escrituras
·         Cântico do Saltério
·         Oração
·         Pregação da Palavra
·         Oração (Ensinada por Cisto)
·         Cântico do Salmo
·         Bênção

Quando havia a Ceia do Senhor, logo após o canto do Salmo final, antes da Bênção, continuava o serviço litúrgico com a seguinte ordem:
·         Exortação, Recomendação e Convite à Mesa do senhor
·         Consagração e Bênção para os elementos
·         Palavra da Instituição ( 2 Corintios 11. 23-27)
·         Oração de Ação de Graças
·         Participação e Entrega do Pão e Vinho
·         Lembrança da Graça de Deus manifestada através dos sacramentos
·         Ação de Graças
·         Coleta em favor dos pobres


“É marcante nesta liturgia o lugar concedido à leitura da palavra, exposição e pregação da Palavra de Deus. O Diretório contém uma parte excelente dedicada à arte da pregação, defendendo o estilo simples e direto dos puritanos, que insistiam na comunicação da mensagem da Escritura”.(9)

Os teólogos ingleses do século XVII deixaram para nós um profundo legado: zelo no culto dirigido a Deus e simplicidade na maneira de cultuar.


Rev. Naziaseno Cordeiro Torres,VDM

(1) Nichols, Robert H. História da Igreja Cristã, p. 178
(2) Cairns, Earle E. O Cristianismos Através dos Séculos, p. 273
(3) Rykens, Leland. Santos no Mundo, p. 120
(4) Com o passar dos anos, sob a influência de Thomas Cartwright (1535-1603), professor de teologia em Cambrandge, por volta de 1470, deslocou-se a ênfase na reforma litúrgica para o campo da teologia eclesiologia. Em suas aulas sobre o livro de Atos, Cartwright se opunha ao sistema episcopal.
(5) Packer, James I. Entre os Gigantes de Deus, p. 267
(6) Revista os Puritanos
(7) Citado por Paulo Anglada em O Princípio Regulador do Culto, p. 17
(8) John Leith, A Tradição Reformada, p. 306
(9) Idem, p. 307


PRÓXIMO ARTIGO: DESAFIOS ATUAIS PARA O CULTO CRISTÃO (I): Existencialismo - Ênfase nas Emoções.
  



            

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O CULTO NA HISTÓRIA DA IGREJA (III)

O CULTO NA REFORMA PROTESTANTE

A Reforma Protestante, no século XVI, foi uma resposta  à liturgia da Idade Média. Em certo sentido, o escopo principal dessa nova fase gravitou em torno de questões litúrgicas. Concordamos com o rev. Paulo Anglada, quando afirmou que “duas questões foram de suma importância na Reforma Protestante do século XVI: o culto e a doutrina (e nessa ordem)”.(1) Calvino também pensava assim. Num tratado sobre a necessidade de reforma na Igreja, escrito em 1543, ele enfatiza: “... primeiro, o modo como Deus é cultuado devidamente; e, segundo, a fonte da qual a salvação pode ser obtida. Quando se perde de vista estas coisas, embora possamos nos gloriar no nome de cristãos, nosso profissão de fé é vazia e vã”.(2)

            A Reforma do século XVI “foi o maior evento, ou série de eventos, desde o encerramento da cânon das Escrituras”(3). O filósofo alemão Hegel referiu-se à Reforma como “o sol que a tudo ilumina e que sucede aquela aurora do final da idade média”.

            Os reformadores examinaram os precedentes da Igreja, quando procuraram a maneira correta de cultuar a Deus. Eles não inovaram, simplesmente olharam para o passado. No ato de olharem para trás descobriram a adoração na igreja primitiva. Formulada pelos pais apostólicos. Zuinglio descobriu a riqueza na obra de Agostinho, Cirilo de Alexandria, Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, Jerônimo e Orígenes. Essa descoberta fê-lo defender a primazia da Escritura e sua rejeição do sacrifício da missa.

            O reformador Ecolampadio catalogou as obras de Jerônimo e editou os textos de Crisóstomos. Martin Bucer possuía um conhecimento substancioso de literatura pastoral da Igreja Primitiva. Ele abraçou a escola exegética de Alexandria e obteve as edições de Erasmo dos textos dos teólogos da Igreja Primitiva.

            Calvino chegou a produzir um livro cujo título era: “As Formas de Orações Segundo o Costume da Igreja Antiga”. Ele declarou que a liturgia reformada deve se coadunar à prática da Igreja Primitiva. Tomou por base a prática cúltica formulada por Gregório, Basílio, Crisóstomo, Agostinho, Ambrósio e Cipriano, e rejeitou a forma de culto medieval que, para ele, estava longe das práticas da Igreja Patrística.

            Como consequência desse descobrimento patrístico o culto voltou a simplicidade original:
Os dirigentes do culto da igreja antiga se opunham ao culto suntuoso. Alguns chegaram mesmo a proibir a pintura de imagens de Cristo e de santos nas paredes dos templos. Clamaram contra a negação do cálice aos fiéis, a elaboração de leis para o jejum e a exigência de celibato aos sacerdotes. Os reformadores também se opuseram a tais costumes. Mas a área mais importante em que os reformadores examinaram a história em busca de orientação foi a litúrgica. Tanto a Igreja Primitiva como os reformadores mostraram um interesse primário pela proclamação da Palavra, pela oração por iluminação, pela invocação, pela oração de confissão, pela oração de intercessão e pela celebração da Ceia do Senhor.4
           

Vejamos os pontos principais do culto reformado.

A PRIMAZIA DA PALAVRA

            Os reformadores entendiam a Palavra de Deus como o centro do culto a Deus. João Calvino considerou a pregação da palavra como a parte principal do culto, e, em Genebra, as três paróquias realizavam quinze cultos semanalmente, todos com sermões.
            
          Martin Bucer sustentava que a Bíblia circunvolve a Palavra de Deus, e somente quando a Palavra é dirigida à Igreja e a Igreja apresenta a sua resposta, o verdadeiro culto acontece.
           
            Zuínglio, em Zurique, considerou a Palavra pregada como o ápice do culto. Sustenta ele que as orações, os lecionários, os responsos, os credos e os mandamentos são “simplesmente a ida da congregação para a Palavra e, depois, seu retorno da Palavra e saída para a vida com a Palavra”.  Ele entendeu que a pregação da Palavra estava relacionada diretamente com a salvação.
           
            Martinho Lutero acreditava que a Palavra pregada é revelação com as próprias Escrituras; isso porque ele observou que o Evangelho, originalmente, não era um livro, mais sermões, isto é, testemunho da fé apostólica.

            A Reforma foi o maior reavivamento da Pregação na história da Igreja cristã. Deus “usa o ministério de um homem para declarar publicamente a sua vontade a nós pela sua boca”, diz Calvino, “como um tipo de trabalho delegado, não transferindo a eles sua prerrogativa e honra, mas somente para que, através de suas bocas, ele possa fazer sua própria obra – assim como um trabalhador usa uma ferramenta para fazer o seu trabalho”.(5)

O discurso reformado apresenta o sermão como sacramento. “A verdade é que o ramo calvinista de tradição reformada e os documentos confessionais da tradição como um todo mostra uma consciência intensamente sacramental, mas do que acontece nas tradições romanas e anglicanas. Parte desse “mais” diz respeito ao sermão. Mais do que quaisquer tradições da cristandade, as da igreja da reforma – tanto a igreja reformada como a igreja luterana – tem enfatizado que, através da proclamação da igreja, Deus age graciosamente com o seu povo”.(6)

            Na liturgia da Reforma Deus fala soberanamente através do sermão pregado pelo ministro. Daí a relevância da pregação para os reformadores.

O LUGAR DOS SACRAMENTOS

         Em qualquer ordem de culto devem existir, para os reformadores, sempre três elementos: a pregação da Palavra, as orações e o sacramento da Ceia do Senhor. É bem verdade que o pensamento de Zuínglio era diferente dos demais reformadores.

            A Ceia do Senhor para Calvino não era um simples memorial, como atestava Zuínglio. Para ele a eucaristia era um profundo meio de graça – Deus atua a nosso favor. Participar da ceia é entrar na esfera da atuação de Deus, e não apenas da presença de Deus. Só nos resta a convicção de que temos de apossarmos da ação de Deus em fé e gratidão, através da obra do Espírito.

            No “sagrado ministério da Ceia”, diz Calvino, Deus “cumpre interiormente aquilo que ele mostra exteriormente”(7). Em outro loci ele diz que quando “recebemos o sacramento em fé, segundo a ordenação do Senhor, nós somos feitos verdadeiramente participantes da própria substância do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Como isso é feito alguns podem deduzir melhor e explicar mais claramente do que outros. Seja como for, por um lado, para excluir todas as fantasias carnais, devemos elevar nosso coração aos céus, não pensando que nosso Senhor Jesus se rebaixa tanto a ponto de ser encerrado em alguns elementos corruptíveis; e, por outro lado, para não prejudicar a eficácia desta sagrada ordenação, devemos sustentar que ela é efetivada pelo poder secreto e miraculoso de Deus, e que o Espírito de Deus é o elo de participação espiritual”(8).

            Essa é a visão eucarística engendrada pelos reformadores no seu período histórico.


PARTICIPAÇÃO DO POVO

         A realização do culto na língua do povo foi uma tentativa de incluir a comunidade na adoração - a igreja na experiência de cultuar a Deus. Calvino asseverava que os adoradores deviam cultuar de uma forma inteligente. Para tal haveria uma necessidade de uma total compreensão da linguagem que estava sendo usada. Os fiéis tinham de ser espiritualmente alimentados para exercer seus direitos e, na medida do possível, entender e participar no canto e nas orações faladas durante o culto.

            Um ponto importante na participação do povo no culto foi a recuperação dos salmos na liturgia. Os reformadores procuraram recuperar os salmos e outros textos da Escritura – Calvino, através do canto metrificado, e Zuinglio, através de leitura de antífona.

            É bom destacar que os reformadores sustentavam que a música tinha de conduzir o texto aos adoradores e não distrai-los.

            À princípio, quando Calvino chegou em Genebra restringiu a música. Como Zuinglio, Calvino não tinha, inicialmente, música no culto. Mas, depois de visitar Estransburgo, colocou vários salmos nas métricas francesas de Mateus Greitu e Wolfgang Dachstein. É interessante perceber que essa alternativa seria para substituir as “frias melodias” de Genebra.

            Michael Horton observa que “a tradição reformada mais moldada pela influência de João Calvino produziu também uma rica tradição artística. Não só o Barroco Holandês foi um tributo à sua influência, como também a tradição de cânticos dos Salmos, hoje em dia muito esquecida, que foi popularizada durante o seu ministério em Genebra. Criança de escola na França cantavam os Salmos nos pátios onde brincavam (até que o mestre de escola as mandasse parar) e estes hinos majestosos foram cantados em lugares longínquos como na Hungria, Polônia, Escócia e Itália durante a Reforma. Embora Calvino admoestasse contra colocar a Igreja de volta sob as leis cerimonias de Israel, que foram apenas sombra do reino futuro e passaram com a vinda de cristo, ele, não obstante, encorajou o desenvolvimento de sociedades musicais na comunidade. Para o cântico dos Salmos sagrados nas igrejas, ele empregou o poeta mais famoso da renascença francesa, Clement Marot (1497-1544) para escrever o texto e compor música com a assistência de Louis bourgeois.(9)

            Toda essa moldura musical tinha uma finalidade básica: o serviço prestado pela congregação - a participação do povo no culto. Não havia a necessidade do coro. Os salmos tinham de ser cantados em uníssonos e sem acompanhamento instrumental.  

            Podemos resumir o ensino dos reformadores em relação ao culto, sobretudo Calvino, em quatro assertivas:

a)      A Integridade Bíblica. Eles insistiam no fato de que toda a prática deve ter sustentação no ensino bíblico.
b)      Inteligibilidade Teológica. O culto não deve apenas estar correto, mas deve também ser compreensível.
c)      Edificação. A prova concreta a que está sujeito o culto é a do crescimento em amor, confiança e lealdade para com Deus e para com o próximo.
d)      Simplicidade. O culto deve ser simples. Todos os movimentos, atos e palavra desnecessários são eliminados. As palavras, atos e outros acessórios do culto devem, acima de tudo, ser apropriados à verdade que comunica ou expressam.

Em relação a uma ordem litúrgica reformada não há unanimidade entre os reformadores. Lutero, Farel, Zuinglio, entre outros, formularam a sua própria ordem de culto. Devido a nossa herança calvinista, me proponho a apresentar a ordem litúrgica de Calvino. Ei-la:

- Convite à Adoração: (Leita Bíblica conclamando ao Culto Público)
- Oração de Confissão de Pecados
- Sentença Bíblica de Absolvição
- Decálogo (1ª parte)
- Oração
- Decálogo (2ª parte)
- Cântico de Salmo
- Oração por iluminação
- Leitura Bíblia e entrega do sermão
- Grande Oração (pastoral) e paráfrase da oração do Senhor
- Recitação do Credo Apostólico
- Preparação do Pão e Vinho
- Oração para a recepção da ceia (consagração), finalizando com a oração do Senhor
- Instituição da Santa Ceia (leitura bíblica)
- Exortação
- Distribuição dos elementos
- Cântico do Salmo
- Oração de Agradecimento
- Nunc Dimittis
- Bênção Araônica


            Aprendemos, historicamente, com os reformadores, que o culto cristão deve celebrar frequentemente a Ceia do senhor, deve haver mais leituras da Palavra de Deus, uma renovada ênfase no sermão expositivo, oração longa de intercessão (oração pastoral) após a proclamação da Palavra e do cântico de salmos metrificados.


Rev, Naziaseno Cordeiro Torres

PRÓXIMO ARTIGO: O CULTO NA ERA DOS PÓS-REFORMADORES

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O CULTO NA HISTÓRIA DA IGREJA (II)

NA IDADE MÉDIA

        Vimos, no artigo passado, como o culto cristão, de certo modo, foi corrompido pelo paganismo. Ao longo do século V ao XVI a adoração, como um todo, foi alterada radical e completamente. A estrutura litúrgica formulada por Justino e Hipólito foi gradativamente modificada.

O primeiro fato marcante do culto medieval é a sua enfática concentração na eucaristia. Na liturgia de Justino havia um equilíbrio entre a palavra e o sacramento. Entretanto, já no início da idade média o ministério da Palavra tinha perdido o seu significado, e era entendido, simplesmente, como uma preparação para a eucaristia. Tomás de Aquino, amente teológica católica medieval, expressa no seu tratado que a celebração desse mistério da eucaristia é precedida por uma certa preparação “a fim de que possamos realizar dignamente aquele que vem depois”(1). De uma forma semelhante, muitos escritores católicos, até nos dias de hoje, falam daquilo que precede a eucaristia na liturgia como pré-missa. Robert Hasting Nichols, em História da Igreja Cristã, afirma: “A missa tornou-se o elemento central do culto. A ceia do Senhor era agora conhecida pelo nome de missa. Este sacramento era considerado um sacrifício continuamente oferecido a Deus pelos pecados do mundo”(2). Nichols, ainda, salienta que “firmava-se cada vez mais a crença de que o pão era verdadeira carne e o vinho, o verdadeiro sangue do Senhor”(3). É bem verdade que, no início da idade média, a crença não tivesse sido definida e declarada pela Igreja.

Com a ênfase completamente dirigida para a eucaristia, o serviço da Palavra foi frequentemente truncado pela omissão do sermão. Era uma raridade que um pároco pregasse, pois a maioria do clero era bastante ignorante para pregar a Palavra. Com o surgimento de frades dominicanos e franciscanos, dedicaram-se muito a essa obra tão negligenciada por parte dos sacerdotes.

Deve-se reconhecer, ainda, que o povo geralmente não participava de toda a estrutura do culto.  Todas as partes eram celebradas em latim; assim sendo, poucas pessoas entendiam o que ouviam na Igreja. O papel do povo era o de espectadores. Bem diferente era a compreensão que Justino, que se refere ao povo como sujeito das orações: Nós oramos, Nós comemos, nós nos cumprimentamos uns aos outros, nós dizemos: Amém. Contudo, “gradualmente, a ideia desenvolvida foi de que a liturgia era alguma coisa que o clero fazia em favor do povo”(4). O grande estudioso litúrgico católico J. A. Jungmann, afirmou: “O povo era religiosos e vinha aos serviços. Contudo, mesmo quando estava presente, a liturgia era para o clero. O papel dos leigos era, para todos os efeitos, o de espectadores”(5).’

Um fato marcante na liturgia medieval é que existia uma linha divisória entre o clero e o leigo. Desta maneira é que se derivou uma distinção: a clericalização da Igreja. Seu aspecto mais óbvio foi a introdução de ofícios eclesiásticos com diferenciação de oficiais eclesiásticos com distinção hierárquica de autoridade entre eles e com um laicato na base. A ideia colocada, paulatinamente, foi que a liturgia era algo que o clero fazia em favor do povo.

A teologia sacramental postulada na idade média deve, também, ser alvo de nossa análise. Os sacramentos comunicavam graça, contudo “a graça veio a ser considerada menos como a atitude de Deus para conosco e mais como alguma coisa que tornava infusa na pessoa”.(6) O grande problema nessa teologia é o conceito de graça. Tomás de Aquino se refere à graça como uma “qualidade da alma” da pessoa humana.(7) Em um outro loci ele se refere à graça como o “princípio das obras meritórias por intermédio da virtude”.(8) O espírito do homem, enfraquecido e devastado pelo pecado é restaurado e fortalecido por uma infusão da graça. Como consequência direta desse erro a Igreja Medieval ensinou que o pão e o vinho, sob a consagração feita pelo sacerdote, são transformados em sua substância no corpo e no sangue de Cristo, de maneira que Cristo se torna corporalmente presente diante de nós.

O ministrante da eucaristia era o sacerdote(9). A Igreja insistia, de maneira uniforme, que as bênçãos da eucaristia no fiel não depende das condições espirituais do sacerdote. Os sacramentos não são eficazes através da atividade daquele que os executam (ex opere operantis); eles são eficazes através do ato executado (ex opere operato). Criou-se, então, uma dicotomia entre ortodoxia e ortopraxia. Se a pessoa ordenada realmente realiza ou não o sacramento é algo que não depende de sua piedade, mas do fato de que ela tenha a intenção de fazer aquilo que a Igreja faz – juntamente com a condição de que o requisito matéria e o requisito forma (palavra) estejam presentes.

Os medievais não deram atenção, imediatamente, à presença ativa do Espírito Santo. A epiclesis do Espírito, tão presente na oração de Hipólito, desapareceu por completa na missa. A epiclesis era um apelo para que o Espírito fizesse com que os elementos se tornassem efetiva. Diz ela: “E nós te suplicamos que tu envies o teu Espírito Santo sobre a oferenda de tua santa igreja, para consagrar em unidade todos aqueles que a receberem. Que eles sejam cheios do santo Espírito que fortalece a sua fé na verdade. Que eles sejam assim capacitados a te louvar e a te glorificar através de teu Filho Jesus Cristo”(10). Assim sendo, o ministério eucarístico era vazio e insignificante sem a ação do Espírito de Cristo.

Além desses profundos desvios no culto no período medieval, podemos ainda citar:

a)      O culto das relíquias: Muitos objetos tornaram-se sagradas na mentalidade medieval. Ossos dos apóstolos, cadeias com que Pedro foi algemado, por exemplo, era relíquias que se criam tinham o poder de operar milagres(11).
b)      As peregrinações a locais “sagrados”: Havia, na época, o costume de viagens rumo a locais ditos sagrados. Tais viagens, afirmava-se, conferir aos peregrinos as graças divinas.(12)
c)       O culto dos santos e a mariolatria: Deus não era o único digno de receber adoração. Entre os santos, quem ocupava mais espaço, era a Virgem Maria. Diz Nichols que “o ano eclesiástico se encheu de grandes festas em sua honra. Faziam-lhe orações contínuas por sua intercessão junto ao Pai”.(13) Recebiam a devoção, os apóstolos, mártires, monges e ouros santos homens e mulheres. Consequentemente crescia o calendário eclesiástico.(14)
d)      Confissão, penitência, absolvição. O homem religioso medieval devia se confessar, pelo menos, uma vez por ano. A penitência era o resultado pelo pecado do infrator, que variava de acordo com o grau da falta. Sacrifícios como, por exemplo, jejum, flagelações, peregrinações, rezas... Essas penitências, uma vez cumpridas, eram aceitas pela igreja como prova de verdadeiro arrependimento. A absolvição dos pecados era pronunciada pelos sacerdotes.(15) Nichols salienta que “no meio da idade média tal pronunciamento era geralmente considerado como perdão divino, concedido pelo pecador. Depois prevaleceu a ideia de que a Igreja, por seus sacerdotes, podiam não somente declarar, mas, na realidade, conceder judicialmente o perdão. A igreja, pensava-se, possuía o perdão divino e podia concedê-lo aos pecadores”.(16)
e)      O Purgatório: A Igreja medieval ensinou que havia um estado de sofrimento purificador, pelo qual o pecador deve passar antes de entrar no gozo eterno.(17)
f)       As Indulgências: A Igreja  ensinava que tinha o poder de diminuir as penas do purgatório daquelas pessoas que, enquanto estando na terra, satisfizessem as suas exigências. Essa redução de penas do purgatório era chamada indulgências. Vale salientar que tal absurdo foi a “gota d ‘água”  para o nascimento de uma nova reflexão teológica-exegética: A Reforma Protestante, no século XVI.(18)

Nicholas Wolterstorff nos dá uma visão panorâmica do período medieval:


“Em síntese, a minha sugestão é que a liturgia medieval do ocidente era uma liturgia em que, num grau extraordinário, se tinha perdido de vista a ação de Deus. As ações eram humanas. Os sacerdotes dirigiam-se a Deus. Os sacerdotes provocavam a presença física de Cristo, ainda que estática. Os leigos adoravam a Cristo sob as aparências de pão e vinho. A recepção do pão consagrado das mãos do sacerdote causava uma infusão da graça aos comungantes. Mas onde, em tudo isso, estava Deus, o Deus vivo e ativo? O pão infundia a graça nele significada. A consagração pelo sacerdote efetuava a presença física de Cristo. Mas Deus, como agente, não estava em parte alguma à vista. E qual era o ponto decisivo em tudo isso?”(19)

Rev. Naziaseno Cordeiro Torres

(1) Summa Theologica, III, Q.83, art 4
(2) A palavra "missa" vem do latim. Esse é o nome comumente dado à eucaristia, por parte do catolicismo ocidental. A derivação do nome é incerta, mas os eruditos supões que vem das sentença latina "it, missa est" ("Ide, estás despedidos") que o diácono pronuncia no fim da cerimônia.
(3)  Nicholas, Robert, História da Igreja Cristã, pp. 75-76.
(4) Wolterstorff, Nichols. Grandes Tema da Tradição Reformada, p. 241.
(5) Idem. Ibid. p. 242.
(6) Idem. Ibid. p. 242
(7) Summa Theológica, II/I, Q. 110, arts. 2-4.
(8)   Summa Theológica, II/I, Q. 110, arts. 1
(9) Em português "sacerdote" vem do latim "sacer", "sagrado", "consagrado".
(10) Nicholas Wolterstorff, Grandes Temas da Tradição Reformada, p. 240
(11) Nichols, Robert Hasting, História da Igreja Cristã, p. 85.
(12) Idem, p. 84
(13) Nichols, Robert Hasting, História da Igreja Cristã, p. 75.
(14) Idem, p. 84
(15) Idem, p. 115.
(16) Idem. p. 104
(17) Idem. p. 116
(18) Idem, Ibid
(19) Nicholas Wolterstorff, Grandes Temas da Tradição Reformada, p. 249.

PRÓXIMO ARTIGO: O CULTO NA REFORMA PROTESTANTE

sábado, 19 de setembro de 2015

O CULTO NA HISTÓRIA DA IGREJA (PARTE I)

NA IGREJA PRIMITIVA E PÓS-APOSTÓLICA

O Culto cristão tem como fonte originária a herança do padrão de culto vétero-testamentário, fornecido pelo ritual do Templo, e, sobretudo, a liturgia da sinagoga. Assim sendo, o pano-de-fundo da adoração cristã primitiva deve ser examinado nestas duas instituições judaicas. Vejamos alguns detalhes sobre elas.

O CULTO SINAGOGAL
A palavra “sinagoga” é uma palavra grega que significa trazer com, ou seja, assembleia. O termo aparece 57 vezes no Novo Testamento apresentando sempre essa mesma ideia.
Provavelmente, as sinagogas foram originadas no cativeiro babilônico em substituição ao Templo de Jerusalém, uma vez que o povo judeu não tinha mais acesso a tal lugar de adoração. Nesse período a sinagoga tornou-se parte da vida religiosa entre os judeus exiladas.

OS ELEMENTOS DE CULTO SINAGOGAL(1)
a)      Louvor: O culto era aberto com uma nota de louvor. O presidente convoca o assistente a convidar alguém da congregação para começar o culto com a “chamada ao louvor”. Começa, então, exclamando: “Bendizei ao Senhor, Aquele que deve ser bendito” e o povo responde com a bênção: “Bendito seja o Senhor... para sempre”. Esse princípio inicial de culto é preconizado, também, pelo Talmude quando diz: “O homem deve sempre proferir louvores em primeiro lugar, e então orar”.
b)      Oração: Há dois tipos de oração no culto sinagogal:
(i)                 O primeiro tipo consiste em duas declarações muito belas, a Yotzer (“Aquele que forma”). Essa oração exala a Deus como Criador e sustentador de todas as coisas. A outra é chamada de Ahabar (“amor”). Essa se ocupa em rememorar o amor divino, expressando as promessas de
Deus em relação ao seu povo.
(ii)               O segundo tipo é a oração das Dezoito Bênçãos. Os ministros conclamam um membro da assembleia para dirigi-la. O homem nomeado vai para frente, e dirige as intercessões uníssonas da congregação que responde dizendo: “Amém”. As Dezoito Bênçãos abrangem uma ampla gama de temas: expressão de louvor, petições por benefícios espirituais e materiais, súplicas pelos necessitados, em favor dos juízes e conselheiros e para o povo da Aliança.
c)       Instrução: Os próprios judeus se referiam a sinagoga como “a casa da instrução”, pois não há nada que seja mais de acordo com a adoração judaica do que a ênfase que é dada à leitura e exposição das Escrituras. Além disso, a sinagoga era usada, casualmente, como escola religiosa para as crianças.

LÍDERES DA SINAGOGA(2)
             Os líderes eram:
a)      Os Chefes (Lc. 8.49; 13.14; At. 18. 8,7). Eram os responsáveis pelo arranjo dos cultos e pela execução da autoridade na comunidade.
b)      Os Presbíteros (“Anciãos”, Lc 7.3; Mc. 5.22; At. 13.15). Formavam um concílio sob a autoridade dos “chefes”.
c)       Legatus ou Ângelus Eclesiae. Operava como leitor das orações e como mensageiro.
d)      Assistente (Lc. 4. 20). Preparava e cuidava dos livros, limpeza da sinagoga, fechava e abria suas portas, etc.
Esses são, portanto, os aspectos principais do culto da sinagoga. Mas, qual a contribuição do Culto do Templo na formação da adoração cristã?

O CULTO DO TEMPLO
                O Templo sempre teve uma profunda importância na vida do povo hebreu. A começar pelo tabernáculo. O tabernáculo foi erguido no deserto, e a proposta do tabernáculo era estabelecer um relacionamento íntimo, pessoal entre Deus e o seu povo. Deus estaria para sempre habitando com o seu povo, e estaria de forma vívida no santuário. A sua glória estava, mais precisamente, no Santo dos Santos.
                Depois que Israel se organizou como nação, possuindo uma terra, houve a necessidade de um Templo fixo em Jerusalém. O Templo foi construído sob o reinado de Salomão, o filho de Davi.
                O que nos interessa é a estrutura litúrgica do Culto do Templo.
a)      O povo era chamado para comparecer perante um Deus Santo (Ex. 35.11).
b)      O povo era convidado para santificar-se pelo oferecimento de ofertas, que eram: ofertas queimadas, ofertas de manjares, sábado semanal, ofertas de ações de graças, ofertas pelos pecados, ofertas pelas transgressões e ofensas.
c)       O povo era convidado a tomar uma atitude de consagração e santificação.

Em todo esse ritualismo das cerimônias dos hebreus encontramos estas partes:
a)      Visão da santidade de Deus (Is. 6.3);
b)      Visão do pecado do homem (Is. 6.5);
c)       A necessidade de perdão de pecados (Is. 6.7);
d)      Sentimento de gratidão diante de um Deus gracioso (Is. 6.8);
e)      Consagração pessoal (Is. 6.8).

O ritual do tempo era simbólico: apontava para um alvo superior. Daí surge a necessidade dos sacrifícios e holocaustos.

O CULTO CRISTÃO NO NOVO TESTAMENTO
Com base nos aspectos do culto sinagogal e do culto do Templo, podemos afirmar que a adoração neo-testamentária nasceu da confluência dessas duas formas de adoração. O que faltava no culto sinagogal era o sacrifício postulado no culto templário. Assim sendo, o culto primitivo é o culto sinagogal com a presença cristológica na sua liturgia. Evidentemente, não havendo mais a necessidade de sacrifício de animais, pois no culto cristão o sacrifício de Cristo  na cruz foi claramente compreendido. A liturgia do culto cristão, depois dessa união, estabeleceu-se com os seguintes elementos:
a)      Leitura das Escrituras (I Tm. 4. 13; Col. 4. 16);
b)      A homilia – exposição da Palavra (At. 20.7);
c)       Confissão de Fé (I Tm. 6. 12; At. 8. 37);
d)      Cânticos (Col. 3. 16);
e)      Amém Congregacional (I Co 14. 5,6);
f)       Ofertas (I Co 16. 1-2).

O CULTO CRISTÃO PÓS-APOSTÓLICO
                Para analisar o período do culto cristão pós-apostólico é necessário recorrer a literatura extrabíblica, pois, a época estudada refere-se ao período de II até o V século da era cristã.
                No Didaquê, Ensino dos Apóstolos(3),  é encontrada uma descrição da época pós-apostólica: “Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro”(4).
                A mais antiga indicação que temos de uma liturgia cristã completa nos vem de Justino, o Mártir, ao que parece uma descrição da liturgia de Roma, mais ou menos no ano 150 d.C., dirigida ao imperador Antônio Pio e seus filhos adotivos, defendendo o cristianismo contra a perseguição governamental e as críticas pagãs. Assim descreve o culto cristão:
“No dia denominado de dia de sol há uma reunião de todos aqueles que vivem tanto nas cidades como no campo. Ali se dá a memória dos apóstolos ou das Escrituras dos profetas até onde o tempo permite. Terminada a leitura, o presidente faz uso da palavra para nos admoestar e nos exortar a imitação e prática dessas coisas admiráveis. Logo nos levantamos e oramos juntos. Terminada a oração, do modo como já foi dito, traz o pão e vinho com água. O presidente dirige a Deus orações e ações de graças, o povo aquiesce com a aclamação: Amém. E se procede a distribuição dos elementos eucarísticos entre todos, enviando-se, também, mediante diáconos, aos que estão ausentes.”(5)
Há algumas coisas nessa liturgia que são dignas de observação. Pode ter havido elementos menores no serviço que Justino deixou de mencionar: “Talvez a coisa mais importante para se notar é que o serviço tinha duas partes principais: o serviço da Palavra, consistindo da leitura da palavra e de um sermão; e o serviço da eucarístia, com as orações intercessórias formando uma ponte entre as duas partes”.(6)

Infelizmente constatamos que já nos séculos II e III havia uma penetração pagã advinda das religiões de mistério. Justino, em sua aludida obra, constata que a Santa ceia já tinha sido copiada pelos pagãos.
Gradativamente notamos uma degenerescência no culto cristão ao longo dos tempos. O historiador Williston Walker, escreve:

O culto público nos séculos IV e V estava inteiramente sujeito a influência do conceito de disciplina secreta, a assim chamada disciplina arcani, provavelmente originária de concepções semelhantes às religiões de  mistério, ou delas provenientes. Suas raízes remontam ao que parece, ao século III. Sob a influência de tais fatores, os ofícios dividiam-se em duas partes.  A primeira era franqueada aos catecúmenos e ao público em geral, incluindo leitura da Escritura, cânticos, o sermão e a oração. À segunda, o verdadeiro mistério cristão, só eram admitidos os batizados. Seu ápice era a ceia do Senhor, mas o credo e a oração dominical eram também reservados aos iniciados por meio do batismo.  A disciplina secreta terminou com o desaparecimento do catecumenato, no século IV, partido do pressuposto de que a população era agora cristã. A parte pública da adoração dominical iniciava-se com a leitura da Escritura, entremeada do cântico dos Salmos.  Essas seleções apresentavam três passagens: os profetas, isto é, o Antigo Testamento; as epístolas e os evangelhos. Eram escolhidos de forma tal que no curso de domingos sucessivos se abrangesse a Bíblia inteira. No fim do século IV, começaram a ser elaborados os lecionários, reclamados pela conveniência de ler seleções apropriadas a estações especiais  e de abreviar certas passagens. Durante a luta ariana, tornou-se comum o uso de hinos outros que não os salmos, prática que, no Ocidente, foi disseminada com grande sucesso por Ambrósio de Milão. A última parte do século IV e a primeira metade do V foi, mais que quaisquer outras, a era dos grande pregadores da Igreja Antiga. Entre o mais eminente contavam-se Gregário de Nazianzo, Crisóstomo e Cirilo de Alexandre, no oriente; Ambrósio, Agostinho e Leão I, no ocidente. A pregação era, em sua maior parte, de caráter expositivo, embora acrescida de aplicações simples aos problemas da vida cotidiana. Sua forma não raro altamente retórica, e os ouvintes manifestavam sua aprovação por meio de aplausos.(7)

                A partir do IV século há uma profunda corrupção na natureza do culto. Com a morte dos mártires, os novos convertidos tendiam a transferir parte da reverência cúltica a poderes miraculosos que atribuíam aos apóstolos e aos próprios mártires. As tumbas se tornaram locais de peregrinações.(8)
                Abriu-se, então, a porta para as heresias que foram sacralizadas na idade média. A virgem Maria, segunda Eva, como entendia Irineu, passou a ocupar um lugar de mediação entre Deus e o homem. Surgiu a adoração a anjos (Constantino construiu um templo em homenagem ao arcanjo Miguel).(9)
                No fim do século V já não existia mais um culto com a simplicidade apostólica na sua liturgia, um culto puro.

Rev. Naziaseno Cordeiro Torres

(1) Ralph P. Martin, Adoração na Igreja Primitiva, p. 29;
(2) Normam Champlin, Enciclopédia de Bíblia, Filosofia e Teologia, p. 283;
(3) Didaquê significa "Instrução". Trata-se de um documento no fim do séc. I;
(4) XIV - Da Celebração Donical, p. 27;
(5) Justino, Apologia, I, 66;
(6) Nicholas Wolterstorff, Grandes Temas da Tradição Reformada, p. 238, ed, Pendão Real;
(7) Williston, Walker. História da Igreja Cristã, p. 220.
(8) Nichols, Robert Hastings, História da Igreja Cristã, p. 57
(9) Ibid, p. 57. 


Próxima parte: O Culto na Idade Média


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

SÉRIE CONSOLO PARA OS QUE CHORAM: “OI PAI, OI MÃE, SOU EU – SEU FILHO!”


Não era para ser assim! A morte não estava nos planos de Deus. A Bíblia enfatiza que ela é o fruto amargo do pecado (Romanos 6. 23). Os Evangelhos relatam que o Senhor Jesus verteu lágrimas diante da sua assustadora realidade (João 11.35) - é evidente que o choro do nosso Mestre não foi de impotência, mas de tristeza diante da realidade trágica que o pecado proporcionou à obra prima da criação de Deus.  A morte mostra sua face mais cruel ao ceifar vidas ainda jovens, tirando-os da convivência dos pais. É sempre embaraçoso e desafiador consolar corações cujos filhos morreram no desabrochar da vida. Evidentemente não é fácil enterrar os pais, mas o contrário é infinitamente mais doloroso, frustrante e inquietante.  Como trazer consolação para uma mãe – ou pai – diante da duríssima realidade da morte de um filho?  Em muitas ocasiões, exercendo o meu ofício, me encontro sem palavras diante desse tipo de dor. Contudo, há consolação na Palavra de Deus para esse tipo de experiência. Nesse artigo apresento a experiência de dois homens de Deus diante da morte de seus filhos: Ló e Davi.

JÓ, QUASE TUDO PERDIDO

A história de Jó é bastante conhecida. Esse homem perdeu quase tudo: filhos, bens materiais, saúde e honra. Porém, no último capitulo do Livro da sua vida, 42, tudo lhe é restituído. Eu chamo sua atenção para um detalhe que às vezes passa despercebido. Antes da sua terrível provação, o capítulo primeiro narra as virtudes e as riquezas de Jó: possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas. Além dos bens materiais, possuía uma bela família constituída de dez filhos – três moças e sete rapazes. Certamente você sabe o que vem depois... perdeu quase tudo. Agora, o último capítulo do Livro de Jó é revelador. Depois do temporal, Deus lhe restituiu em dobro (Jó 42.10): “Assim, abençoou o Senhor o último estado de Jó mais do que o primeiro; porque veio a ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas”.  E em relação aos filhos que foram mortos? Diz o verso 13: “Também teve outros sete filhos e três filhas”. Ora, pela lógica graciosa de Deus, Jó deveria ter o dobro de filhos, ou seja vintes filhos; mas Deus manteve a mesma quantidade anteriormente. Mas eu garanto pra você que Deus restituiu seus filhos em dobro. Sabe o porquê? Por que filhos não se perdem dos pais mesmo diante da realidade da morte. Jó não os perdeu, ele continuou com os dez, e Deus concedeu mais outros dez. É bem verdade que  Jó temporariamente viveu sem o convívio integral com todos, mas certamente respirando a certeza que a esperança proporciona de um reencontro com todos eles em um banquete no qual Jesus será o anfitrião. Isso nos leva a outro personagem do Velho Testamento que viveu a mesma experiência, o rei Davi.

DAVI, ESPERANDO A RESSURREIÇÃO

No segundo Livro de Samuel, capítulo 12, há o relato da comovente experiência de Davi, diante do poder destrutivo da morte (Aliás, por causa do seu pecado de adultério e assassinado, sua vida foi marcada por histórias trágicas). O relacionamento pecaminoso entre Davi e Bate-Seba (mulher de Urias) gerou uma criança. Mas, o rei de Israel deu motivo para que os inimigos do Senhor blasfemassem, por isso Deus feriu a criança, e essa adoeceu gravemente. Davi buscou Deus incessantemente por meio de orações e jejum - prostrando-se em terra durante uma noite. Depois de sete dias de intensa agonia morreu a criança. Os servos de Davi temia em dar-lhe a notícia porque diziam: “Eis que, estando a criança ainda viva, lhe falávamos, porém não dava ouvidos à nossa voz; como, pois, lhe diremos que a criança é morta? Porque mais se afligirá”. Porém, Davi surpreende seus servos: ele se levantou da terra, lavou-se, ungiu-se, mudou de vestes, entrou na casa do SENHOR e adorou; depois, veio para a sua casa e  pediu pão; puseram-no diante dele, e ele comeu (2 Samuel 12.20). Seus criados não entenderam as atitudes do rei, e indagaram-no: “Que é isto que fizeste? Pela criança viva jejuaste e choraste; porém, depois que ela morreu, te levantaste e comeste pão”. A resposta de Davi foi reveladora: “Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o SENHOR se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, porque jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar?” – veja o finalzinho da resposta de Davi – “Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim”. Notem: “Eu irei a ela...”. O rei não perdeu essa criança, apenas temporariamente foi ela tirada dos seus braços!  A certeza do reencontro mitigou o luto do coração!


Diante dessas experiências recebemos conforto quando confrontados com o poder da morte. Há esperança! Talvez você – ou alguém conhecido seu – perdeu um filho, e vive com o coração pesado pela dor do luto. Saiba: Você não o perdeu, ele continua vivo aguardando o feliz reencontro com os seus braços. Creio que até os filhos abortados ainda no útero, ressuscitarão. Um dia você receberá um tapinha nas costas, e ouvirá: “Oi pai, oi mãe, sou eu -seu filho”! “E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.” Amém!!!
Rev. Naziaseno Cordeiro Torres


quarta-feira, 20 de maio de 2015

UMA PALAVRA AOS PAIS SOBRE O NAMORO NA ADOLESCÊNCIA



 “Tudo passa rapidamente, e nós voamos” (Salmo 90:10b). Esse versículo se aplica muito bem ao desenvolvimento dos nossos filhos. Eles nascem, entram no nosso coração e cabem nas palmas das nossas mãos. De repente, tudo rapidamente passa, eles continuam no nosso coração, mas seus corpos crescem e não somos mais capazes de suportar seus pesos nas mãos – na adolescência o peso é transferido para o coração.  Nessa fase os pais são confrontados com questões peculiares da fase. Enquanto estamos ainda com as nossas mãos cheirando à berço, somos surpreendidos com os questionamentos dos nossos pimpolhos  sobre o namoro. Recentemente minha filha de oito anos me perguntou: “Papai, eu posso  namorar com quantos anos?” Olhei para minha esposa, desconversei e sai de cena intrigado com a perturbadora pergunta.  Mais cedo ou mais tarde, nós, pais, iremos nos confrontar com situações embaraçosas que envolvem relacionamentos dos nossos filhos com outros, tendo em vista o namoro. Seremos inevitavelmente forçados a nos posicionar. E agora? O que fazer? É lícito o namoro na fase da adolescência? O que a Palavra de Deus tem a dizer? Convido você a refletir um pouco comigo, e , em solidariedade recíproca, procurarmos uma luz nessa angustiante tarefa de criar filhos em um mundo pós-queda. 
O que a Bíblia diz em relação ao namoro? Bom, ela não diz absolutamente nada. Encontramos nas Escrituras Sagradas relatos culturais que mostram uma etapa que antecede ao casamento. Seria essa fase um namoro? Se for, então, é muito diferente do que conhecemos hoje. Vejamos:
Antes do casamento propriamente dito havia uma cerimônia que se assemelha, hoje, ao noivado.  Um exemplo clássico foi o relacionamento de José com Maria.  Mateus, descrevendo o nascimento do nosso Salvador, diz: “Ora, o nascimento de Jesus se deu assim: estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo” (Mateus 1.18). A expressão despojada indica um acordo pré-nupcial. Nesse acordo alguns pontos, entre outros, merecem destaquem:
1.       Quase sempre os pais arrumavam os pretendentes para os seus filhos, com exceções raras o filho homem poderia escolher sua futura esposa; mas sempre com a anuência dos pais.
2.       O noivado durava em média 01 ano.
3.       As pessoas se casavam cedo em Israel. Muitos rabinos opinavam que a idade ideal para o homem era dezoito anos.  No que diz respeito às mulheres, elas eram casadas no momento em que tivessem fisicamente aptas para isso, o que, segundo a Lei, era aos doze anos e meio. Quando Maria deu à luz ela não tinha provavelmente mais de quatorze anos de idade.
Evidentemente, não podemos transpor uma cultural oriental de centenas de anos passados para o nosso tempo. Entretanto, os princípios podem - e devem ser - aplicados nos nossos dias em relação ao relacionamento amorosos dos nossos filhos:
1.       A participação ativa dos pais nesse passo tão importante. Infelizmente os pais são omissos nessa fase importante na vida  dos seus filhos. Se eles vivem na casa  dos seus pais, estão sob a tutela dos mesmos. Na verdade os pais não devem apenas opinar, mas aprovar ou não o namoro dos seus filhotes.  Se os pais não tiveram uma participação plena no processo de namoro dos filhos, estão deixando-os à deriva das suas próprias escolhas e  promovendo um futuro fracasso em seus relacionamentos.
2.       A preparação para o casamento não deve se prolongar por anos à fio. Um curto espaço de preparação  que seja suficiente para perceber a aprovação de Deus é necessário. O noivado não é o espaço para providenciar casa e utensílios domésticos. Isso se consegue com o tempo, pela força do trabalho e com a bênção de Deus.  É triste saber de casos nos quais o noivado se estende por anos e anos, e, como conseqüência, o temor de Deus é perdido abrindo-se espaço para relações sexuais que deveriam acontecer no contexto do casamento. Aí o casamento é condenado ao fracasso (em outro artigo falarei sobre os perigos do sexo antes do casamento).
3.       Compromisso. Essa é a palavra chave! Não deveria existir namoro sem a seriedade de um casamento à curto prazo.  Não é errado namorar na adolescência, mas o erro é namorar sem o compromisso de um envolvimento duradouro. Digo mais: se o namoro não tem esse fim, tal namoro é promíscuo e imoral!!!  O pai deveria chamar o namorado da sua filha para uma conversa, e perguntar-lhe sobre suas reais intenções com a sua filha. Além disso, deveria conscientizar o pretendente da necessidade de casar com ela, e logo!!! Talvez você ache que isso seja um absurdo, mas eu lhe digo  que absurdo é permitir que os filhos tenham vários parceiros sem compromisso durante a adolescência com atividade sexual plena. E os pais o que fazem? Fecham os olhos.  Ou será que isso é irreal??

Bom, esse artigo tem por finalidade chamar a atenção dos pais sobre o namoro dos seus filhos adolescentes.  Na realidade é incentivar pai e mãe a abrir os olhos e se envolver plenamente na vida amorosa das suas crianças. Eu acredito no namoro na adolescência, pois era algo muito comum nos tempos bíblicos. Eu creio que o jovem deve casar cedo, e construir uma vida a dois depois do casamento. Creio que Deus abençoa corações sinceros que se casam novos para não pecarem contra o Criador.  Na minha vida pastoral acompanhei o namoro, noivado e casamento de dois casais que começaram a se relacionar no início da adolescência.  Hoje são felizes, bem casados, sustentados por Deus e com um belíssimo testemunho que influencia muitos jovens.  Por fim, aconselho:  pais, não condenem seus filhos ao fracasso de um casamento futuro. Hoje faça a diferença na vida deles. O que Deus requer é que você seja simplesmente pai e mãe!!!


Rev. Naziaseno Cordeiro Torres