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sábado, 19 de setembro de 2015

O CULTO NA HISTÓRIA DA IGREJA (PARTE I)

NA IGREJA PRIMITIVA E PÓS-APOSTÓLICA

O Culto cristão tem como fonte originária a herança do padrão de culto vétero-testamentário, fornecido pelo ritual do Templo, e, sobretudo, a liturgia da sinagoga. Assim sendo, o pano-de-fundo da adoração cristã primitiva deve ser examinado nestas duas instituições judaicas. Vejamos alguns detalhes sobre elas.

O CULTO SINAGOGAL
A palavra “sinagoga” é uma palavra grega que significa trazer com, ou seja, assembleia. O termo aparece 57 vezes no Novo Testamento apresentando sempre essa mesma ideia.
Provavelmente, as sinagogas foram originadas no cativeiro babilônico em substituição ao Templo de Jerusalém, uma vez que o povo judeu não tinha mais acesso a tal lugar de adoração. Nesse período a sinagoga tornou-se parte da vida religiosa entre os judeus exiladas.

OS ELEMENTOS DE CULTO SINAGOGAL(1)
a)      Louvor: O culto era aberto com uma nota de louvor. O presidente convoca o assistente a convidar alguém da congregação para começar o culto com a “chamada ao louvor”. Começa, então, exclamando: “Bendizei ao Senhor, Aquele que deve ser bendito” e o povo responde com a bênção: “Bendito seja o Senhor... para sempre”. Esse princípio inicial de culto é preconizado, também, pelo Talmude quando diz: “O homem deve sempre proferir louvores em primeiro lugar, e então orar”.
b)      Oração: Há dois tipos de oração no culto sinagogal:
(i)                 O primeiro tipo consiste em duas declarações muito belas, a Yotzer (“Aquele que forma”). Essa oração exala a Deus como Criador e sustentador de todas as coisas. A outra é chamada de Ahabar (“amor”). Essa se ocupa em rememorar o amor divino, expressando as promessas de
Deus em relação ao seu povo.
(ii)               O segundo tipo é a oração das Dezoito Bênçãos. Os ministros conclamam um membro da assembleia para dirigi-la. O homem nomeado vai para frente, e dirige as intercessões uníssonas da congregação que responde dizendo: “Amém”. As Dezoito Bênçãos abrangem uma ampla gama de temas: expressão de louvor, petições por benefícios espirituais e materiais, súplicas pelos necessitados, em favor dos juízes e conselheiros e para o povo da Aliança.
c)       Instrução: Os próprios judeus se referiam a sinagoga como “a casa da instrução”, pois não há nada que seja mais de acordo com a adoração judaica do que a ênfase que é dada à leitura e exposição das Escrituras. Além disso, a sinagoga era usada, casualmente, como escola religiosa para as crianças.

LÍDERES DA SINAGOGA(2)
             Os líderes eram:
a)      Os Chefes (Lc. 8.49; 13.14; At. 18. 8,7). Eram os responsáveis pelo arranjo dos cultos e pela execução da autoridade na comunidade.
b)      Os Presbíteros (“Anciãos”, Lc 7.3; Mc. 5.22; At. 13.15). Formavam um concílio sob a autoridade dos “chefes”.
c)       Legatus ou Ângelus Eclesiae. Operava como leitor das orações e como mensageiro.
d)      Assistente (Lc. 4. 20). Preparava e cuidava dos livros, limpeza da sinagoga, fechava e abria suas portas, etc.
Esses são, portanto, os aspectos principais do culto da sinagoga. Mas, qual a contribuição do Culto do Templo na formação da adoração cristã?

O CULTO DO TEMPLO
                O Templo sempre teve uma profunda importância na vida do povo hebreu. A começar pelo tabernáculo. O tabernáculo foi erguido no deserto, e a proposta do tabernáculo era estabelecer um relacionamento íntimo, pessoal entre Deus e o seu povo. Deus estaria para sempre habitando com o seu povo, e estaria de forma vívida no santuário. A sua glória estava, mais precisamente, no Santo dos Santos.
                Depois que Israel se organizou como nação, possuindo uma terra, houve a necessidade de um Templo fixo em Jerusalém. O Templo foi construído sob o reinado de Salomão, o filho de Davi.
                O que nos interessa é a estrutura litúrgica do Culto do Templo.
a)      O povo era chamado para comparecer perante um Deus Santo (Ex. 35.11).
b)      O povo era convidado para santificar-se pelo oferecimento de ofertas, que eram: ofertas queimadas, ofertas de manjares, sábado semanal, ofertas de ações de graças, ofertas pelos pecados, ofertas pelas transgressões e ofensas.
c)       O povo era convidado a tomar uma atitude de consagração e santificação.

Em todo esse ritualismo das cerimônias dos hebreus encontramos estas partes:
a)      Visão da santidade de Deus (Is. 6.3);
b)      Visão do pecado do homem (Is. 6.5);
c)       A necessidade de perdão de pecados (Is. 6.7);
d)      Sentimento de gratidão diante de um Deus gracioso (Is. 6.8);
e)      Consagração pessoal (Is. 6.8).

O ritual do tempo era simbólico: apontava para um alvo superior. Daí surge a necessidade dos sacrifícios e holocaustos.

O CULTO CRISTÃO NO NOVO TESTAMENTO
Com base nos aspectos do culto sinagogal e do culto do Templo, podemos afirmar que a adoração neo-testamentária nasceu da confluência dessas duas formas de adoração. O que faltava no culto sinagogal era o sacrifício postulado no culto templário. Assim sendo, o culto primitivo é o culto sinagogal com a presença cristológica na sua liturgia. Evidentemente, não havendo mais a necessidade de sacrifício de animais, pois no culto cristão o sacrifício de Cristo  na cruz foi claramente compreendido. A liturgia do culto cristão, depois dessa união, estabeleceu-se com os seguintes elementos:
a)      Leitura das Escrituras (I Tm. 4. 13; Col. 4. 16);
b)      A homilia – exposição da Palavra (At. 20.7);
c)       Confissão de Fé (I Tm. 6. 12; At. 8. 37);
d)      Cânticos (Col. 3. 16);
e)      Amém Congregacional (I Co 14. 5,6);
f)       Ofertas (I Co 16. 1-2).

O CULTO CRISTÃO PÓS-APOSTÓLICO
                Para analisar o período do culto cristão pós-apostólico é necessário recorrer a literatura extrabíblica, pois, a época estudada refere-se ao período de II até o V século da era cristã.
                No Didaquê, Ensino dos Apóstolos(3),  é encontrada uma descrição da época pós-apostólica: “Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro”(4).
                A mais antiga indicação que temos de uma liturgia cristã completa nos vem de Justino, o Mártir, ao que parece uma descrição da liturgia de Roma, mais ou menos no ano 150 d.C., dirigida ao imperador Antônio Pio e seus filhos adotivos, defendendo o cristianismo contra a perseguição governamental e as críticas pagãs. Assim descreve o culto cristão:
“No dia denominado de dia de sol há uma reunião de todos aqueles que vivem tanto nas cidades como no campo. Ali se dá a memória dos apóstolos ou das Escrituras dos profetas até onde o tempo permite. Terminada a leitura, o presidente faz uso da palavra para nos admoestar e nos exortar a imitação e prática dessas coisas admiráveis. Logo nos levantamos e oramos juntos. Terminada a oração, do modo como já foi dito, traz o pão e vinho com água. O presidente dirige a Deus orações e ações de graças, o povo aquiesce com a aclamação: Amém. E se procede a distribuição dos elementos eucarísticos entre todos, enviando-se, também, mediante diáconos, aos que estão ausentes.”(5)
Há algumas coisas nessa liturgia que são dignas de observação. Pode ter havido elementos menores no serviço que Justino deixou de mencionar: “Talvez a coisa mais importante para se notar é que o serviço tinha duas partes principais: o serviço da Palavra, consistindo da leitura da palavra e de um sermão; e o serviço da eucarístia, com as orações intercessórias formando uma ponte entre as duas partes”.(6)

Infelizmente constatamos que já nos séculos II e III havia uma penetração pagã advinda das religiões de mistério. Justino, em sua aludida obra, constata que a Santa ceia já tinha sido copiada pelos pagãos.
Gradativamente notamos uma degenerescência no culto cristão ao longo dos tempos. O historiador Williston Walker, escreve:

O culto público nos séculos IV e V estava inteiramente sujeito a influência do conceito de disciplina secreta, a assim chamada disciplina arcani, provavelmente originária de concepções semelhantes às religiões de  mistério, ou delas provenientes. Suas raízes remontam ao que parece, ao século III. Sob a influência de tais fatores, os ofícios dividiam-se em duas partes.  A primeira era franqueada aos catecúmenos e ao público em geral, incluindo leitura da Escritura, cânticos, o sermão e a oração. À segunda, o verdadeiro mistério cristão, só eram admitidos os batizados. Seu ápice era a ceia do Senhor, mas o credo e a oração dominical eram também reservados aos iniciados por meio do batismo.  A disciplina secreta terminou com o desaparecimento do catecumenato, no século IV, partido do pressuposto de que a população era agora cristã. A parte pública da adoração dominical iniciava-se com a leitura da Escritura, entremeada do cântico dos Salmos.  Essas seleções apresentavam três passagens: os profetas, isto é, o Antigo Testamento; as epístolas e os evangelhos. Eram escolhidos de forma tal que no curso de domingos sucessivos se abrangesse a Bíblia inteira. No fim do século IV, começaram a ser elaborados os lecionários, reclamados pela conveniência de ler seleções apropriadas a estações especiais  e de abreviar certas passagens. Durante a luta ariana, tornou-se comum o uso de hinos outros que não os salmos, prática que, no Ocidente, foi disseminada com grande sucesso por Ambrósio de Milão. A última parte do século IV e a primeira metade do V foi, mais que quaisquer outras, a era dos grande pregadores da Igreja Antiga. Entre o mais eminente contavam-se Gregário de Nazianzo, Crisóstomo e Cirilo de Alexandre, no oriente; Ambrósio, Agostinho e Leão I, no ocidente. A pregação era, em sua maior parte, de caráter expositivo, embora acrescida de aplicações simples aos problemas da vida cotidiana. Sua forma não raro altamente retórica, e os ouvintes manifestavam sua aprovação por meio de aplausos.(7)

                A partir do IV século há uma profunda corrupção na natureza do culto. Com a morte dos mártires, os novos convertidos tendiam a transferir parte da reverência cúltica a poderes miraculosos que atribuíam aos apóstolos e aos próprios mártires. As tumbas se tornaram locais de peregrinações.(8)
                Abriu-se, então, a porta para as heresias que foram sacralizadas na idade média. A virgem Maria, segunda Eva, como entendia Irineu, passou a ocupar um lugar de mediação entre Deus e o homem. Surgiu a adoração a anjos (Constantino construiu um templo em homenagem ao arcanjo Miguel).(9)
                No fim do século V já não existia mais um culto com a simplicidade apostólica na sua liturgia, um culto puro.

Rev. Naziaseno Cordeiro Torres

(1) Ralph P. Martin, Adoração na Igreja Primitiva, p. 29;
(2) Normam Champlin, Enciclopédia de Bíblia, Filosofia e Teologia, p. 283;
(3) Didaquê significa "Instrução". Trata-se de um documento no fim do séc. I;
(4) XIV - Da Celebração Donical, p. 27;
(5) Justino, Apologia, I, 66;
(6) Nicholas Wolterstorff, Grandes Temas da Tradição Reformada, p. 238, ed, Pendão Real;
(7) Williston, Walker. História da Igreja Cristã, p. 220.
(8) Nichols, Robert Hastings, História da Igreja Cristã, p. 57
(9) Ibid, p. 57. 


Próxima parte: O Culto na Idade Média


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