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terça-feira, 13 de outubro de 2015

O CULTO NA HISTÓRIA DA IGREJA (III)

O CULTO NA REFORMA PROTESTANTE

A Reforma Protestante, no século XVI, foi uma resposta  à liturgia da Idade Média. Em certo sentido, o escopo principal dessa nova fase gravitou em torno de questões litúrgicas. Concordamos com o rev. Paulo Anglada, quando afirmou que “duas questões foram de suma importância na Reforma Protestante do século XVI: o culto e a doutrina (e nessa ordem)”.(1) Calvino também pensava assim. Num tratado sobre a necessidade de reforma na Igreja, escrito em 1543, ele enfatiza: “... primeiro, o modo como Deus é cultuado devidamente; e, segundo, a fonte da qual a salvação pode ser obtida. Quando se perde de vista estas coisas, embora possamos nos gloriar no nome de cristãos, nosso profissão de fé é vazia e vã”.(2)

            A Reforma do século XVI “foi o maior evento, ou série de eventos, desde o encerramento da cânon das Escrituras”(3). O filósofo alemão Hegel referiu-se à Reforma como “o sol que a tudo ilumina e que sucede aquela aurora do final da idade média”.

            Os reformadores examinaram os precedentes da Igreja, quando procuraram a maneira correta de cultuar a Deus. Eles não inovaram, simplesmente olharam para o passado. No ato de olharem para trás descobriram a adoração na igreja primitiva. Formulada pelos pais apostólicos. Zuinglio descobriu a riqueza na obra de Agostinho, Cirilo de Alexandria, Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, Jerônimo e Orígenes. Essa descoberta fê-lo defender a primazia da Escritura e sua rejeição do sacrifício da missa.

            O reformador Ecolampadio catalogou as obras de Jerônimo e editou os textos de Crisóstomos. Martin Bucer possuía um conhecimento substancioso de literatura pastoral da Igreja Primitiva. Ele abraçou a escola exegética de Alexandria e obteve as edições de Erasmo dos textos dos teólogos da Igreja Primitiva.

            Calvino chegou a produzir um livro cujo título era: “As Formas de Orações Segundo o Costume da Igreja Antiga”. Ele declarou que a liturgia reformada deve se coadunar à prática da Igreja Primitiva. Tomou por base a prática cúltica formulada por Gregório, Basílio, Crisóstomo, Agostinho, Ambrósio e Cipriano, e rejeitou a forma de culto medieval que, para ele, estava longe das práticas da Igreja Patrística.

            Como consequência desse descobrimento patrístico o culto voltou a simplicidade original:
Os dirigentes do culto da igreja antiga se opunham ao culto suntuoso. Alguns chegaram mesmo a proibir a pintura de imagens de Cristo e de santos nas paredes dos templos. Clamaram contra a negação do cálice aos fiéis, a elaboração de leis para o jejum e a exigência de celibato aos sacerdotes. Os reformadores também se opuseram a tais costumes. Mas a área mais importante em que os reformadores examinaram a história em busca de orientação foi a litúrgica. Tanto a Igreja Primitiva como os reformadores mostraram um interesse primário pela proclamação da Palavra, pela oração por iluminação, pela invocação, pela oração de confissão, pela oração de intercessão e pela celebração da Ceia do Senhor.4
           

Vejamos os pontos principais do culto reformado.

A PRIMAZIA DA PALAVRA

            Os reformadores entendiam a Palavra de Deus como o centro do culto a Deus. João Calvino considerou a pregação da palavra como a parte principal do culto, e, em Genebra, as três paróquias realizavam quinze cultos semanalmente, todos com sermões.
            
          Martin Bucer sustentava que a Bíblia circunvolve a Palavra de Deus, e somente quando a Palavra é dirigida à Igreja e a Igreja apresenta a sua resposta, o verdadeiro culto acontece.
           
            Zuínglio, em Zurique, considerou a Palavra pregada como o ápice do culto. Sustenta ele que as orações, os lecionários, os responsos, os credos e os mandamentos são “simplesmente a ida da congregação para a Palavra e, depois, seu retorno da Palavra e saída para a vida com a Palavra”.  Ele entendeu que a pregação da Palavra estava relacionada diretamente com a salvação.
           
            Martinho Lutero acreditava que a Palavra pregada é revelação com as próprias Escrituras; isso porque ele observou que o Evangelho, originalmente, não era um livro, mais sermões, isto é, testemunho da fé apostólica.

            A Reforma foi o maior reavivamento da Pregação na história da Igreja cristã. Deus “usa o ministério de um homem para declarar publicamente a sua vontade a nós pela sua boca”, diz Calvino, “como um tipo de trabalho delegado, não transferindo a eles sua prerrogativa e honra, mas somente para que, através de suas bocas, ele possa fazer sua própria obra – assim como um trabalhador usa uma ferramenta para fazer o seu trabalho”.(5)

O discurso reformado apresenta o sermão como sacramento. “A verdade é que o ramo calvinista de tradição reformada e os documentos confessionais da tradição como um todo mostra uma consciência intensamente sacramental, mas do que acontece nas tradições romanas e anglicanas. Parte desse “mais” diz respeito ao sermão. Mais do que quaisquer tradições da cristandade, as da igreja da reforma – tanto a igreja reformada como a igreja luterana – tem enfatizado que, através da proclamação da igreja, Deus age graciosamente com o seu povo”.(6)

            Na liturgia da Reforma Deus fala soberanamente através do sermão pregado pelo ministro. Daí a relevância da pregação para os reformadores.

O LUGAR DOS SACRAMENTOS

         Em qualquer ordem de culto devem existir, para os reformadores, sempre três elementos: a pregação da Palavra, as orações e o sacramento da Ceia do Senhor. É bem verdade que o pensamento de Zuínglio era diferente dos demais reformadores.

            A Ceia do Senhor para Calvino não era um simples memorial, como atestava Zuínglio. Para ele a eucaristia era um profundo meio de graça – Deus atua a nosso favor. Participar da ceia é entrar na esfera da atuação de Deus, e não apenas da presença de Deus. Só nos resta a convicção de que temos de apossarmos da ação de Deus em fé e gratidão, através da obra do Espírito.

            No “sagrado ministério da Ceia”, diz Calvino, Deus “cumpre interiormente aquilo que ele mostra exteriormente”(7). Em outro loci ele diz que quando “recebemos o sacramento em fé, segundo a ordenação do Senhor, nós somos feitos verdadeiramente participantes da própria substância do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Como isso é feito alguns podem deduzir melhor e explicar mais claramente do que outros. Seja como for, por um lado, para excluir todas as fantasias carnais, devemos elevar nosso coração aos céus, não pensando que nosso Senhor Jesus se rebaixa tanto a ponto de ser encerrado em alguns elementos corruptíveis; e, por outro lado, para não prejudicar a eficácia desta sagrada ordenação, devemos sustentar que ela é efetivada pelo poder secreto e miraculoso de Deus, e que o Espírito de Deus é o elo de participação espiritual”(8).

            Essa é a visão eucarística engendrada pelos reformadores no seu período histórico.


PARTICIPAÇÃO DO POVO

         A realização do culto na língua do povo foi uma tentativa de incluir a comunidade na adoração - a igreja na experiência de cultuar a Deus. Calvino asseverava que os adoradores deviam cultuar de uma forma inteligente. Para tal haveria uma necessidade de uma total compreensão da linguagem que estava sendo usada. Os fiéis tinham de ser espiritualmente alimentados para exercer seus direitos e, na medida do possível, entender e participar no canto e nas orações faladas durante o culto.

            Um ponto importante na participação do povo no culto foi a recuperação dos salmos na liturgia. Os reformadores procuraram recuperar os salmos e outros textos da Escritura – Calvino, através do canto metrificado, e Zuinglio, através de leitura de antífona.

            É bom destacar que os reformadores sustentavam que a música tinha de conduzir o texto aos adoradores e não distrai-los.

            À princípio, quando Calvino chegou em Genebra restringiu a música. Como Zuinglio, Calvino não tinha, inicialmente, música no culto. Mas, depois de visitar Estransburgo, colocou vários salmos nas métricas francesas de Mateus Greitu e Wolfgang Dachstein. É interessante perceber que essa alternativa seria para substituir as “frias melodias” de Genebra.

            Michael Horton observa que “a tradição reformada mais moldada pela influência de João Calvino produziu também uma rica tradição artística. Não só o Barroco Holandês foi um tributo à sua influência, como também a tradição de cânticos dos Salmos, hoje em dia muito esquecida, que foi popularizada durante o seu ministério em Genebra. Criança de escola na França cantavam os Salmos nos pátios onde brincavam (até que o mestre de escola as mandasse parar) e estes hinos majestosos foram cantados em lugares longínquos como na Hungria, Polônia, Escócia e Itália durante a Reforma. Embora Calvino admoestasse contra colocar a Igreja de volta sob as leis cerimonias de Israel, que foram apenas sombra do reino futuro e passaram com a vinda de cristo, ele, não obstante, encorajou o desenvolvimento de sociedades musicais na comunidade. Para o cântico dos Salmos sagrados nas igrejas, ele empregou o poeta mais famoso da renascença francesa, Clement Marot (1497-1544) para escrever o texto e compor música com a assistência de Louis bourgeois.(9)

            Toda essa moldura musical tinha uma finalidade básica: o serviço prestado pela congregação - a participação do povo no culto. Não havia a necessidade do coro. Os salmos tinham de ser cantados em uníssonos e sem acompanhamento instrumental.  

            Podemos resumir o ensino dos reformadores em relação ao culto, sobretudo Calvino, em quatro assertivas:

a)      A Integridade Bíblica. Eles insistiam no fato de que toda a prática deve ter sustentação no ensino bíblico.
b)      Inteligibilidade Teológica. O culto não deve apenas estar correto, mas deve também ser compreensível.
c)      Edificação. A prova concreta a que está sujeito o culto é a do crescimento em amor, confiança e lealdade para com Deus e para com o próximo.
d)      Simplicidade. O culto deve ser simples. Todos os movimentos, atos e palavra desnecessários são eliminados. As palavras, atos e outros acessórios do culto devem, acima de tudo, ser apropriados à verdade que comunica ou expressam.

Em relação a uma ordem litúrgica reformada não há unanimidade entre os reformadores. Lutero, Farel, Zuinglio, entre outros, formularam a sua própria ordem de culto. Devido a nossa herança calvinista, me proponho a apresentar a ordem litúrgica de Calvino. Ei-la:

- Convite à Adoração: (Leita Bíblica conclamando ao Culto Público)
- Oração de Confissão de Pecados
- Sentença Bíblica de Absolvição
- Decálogo (1ª parte)
- Oração
- Decálogo (2ª parte)
- Cântico de Salmo
- Oração por iluminação
- Leitura Bíblia e entrega do sermão
- Grande Oração (pastoral) e paráfrase da oração do Senhor
- Recitação do Credo Apostólico
- Preparação do Pão e Vinho
- Oração para a recepção da ceia (consagração), finalizando com a oração do Senhor
- Instituição da Santa Ceia (leitura bíblica)
- Exortação
- Distribuição dos elementos
- Cântico do Salmo
- Oração de Agradecimento
- Nunc Dimittis
- Bênção Araônica


            Aprendemos, historicamente, com os reformadores, que o culto cristão deve celebrar frequentemente a Ceia do senhor, deve haver mais leituras da Palavra de Deus, uma renovada ênfase no sermão expositivo, oração longa de intercessão (oração pastoral) após a proclamação da Palavra e do cântico de salmos metrificados.


Rev, Naziaseno Cordeiro Torres

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